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Incubação e Cura no Templo
Há muitas características únicas
ou que primeiro começaram com o culto de Asclépio: devoções e
sacrifícios diários, hinos durante o sacrifício, epifanias diárias
do Deus, o seu culto tardio, uma evolução clara... Mas aquela que
mais chama a atenção é sem dúvida a cura no templo: milagres de cura
diários feitos pelo próprio Deus no seu templo. Estas consistiam em
curas totais durante a noite ou instruções dirigidas aos médicos ou
aos doentes sobre como se aliviarem da doença.
O Deus era, claro, também
venerado pelos saudáveis, na esperança de evitar a doença ou de,
pelo menos, agradar ao Deus para que este os ajudasse quando
necessitassem. Faziam-no ao comparecer ao culto diário nos seus
templos (quando o sol nascia e quando pousava), através de preces e
nos seus festivais. Os médicos também tinham um culto onde Asclépio
era considerado o seu Herói e venerado de acordo com esse estatuto.
Mas vamos concentrar-nos nas incubações.
Quando alguém ficava doente
procurava os médicos e estes ajudavam. No caso de não poderem fazer
nada, ou quando a pessoa não podia pagar pela ajuda dos médicos, era
enviada para o templo de Asclépio mais próximo, apesar de a fama de
Epidauro, Cós, Trica e, mais tarde, Pérgamo, atraírem pessoas de
locais mais distantes. Nos primeiros períodos o Deus até tinha um
horário e estava em Epidauro em certos dias, em Cós noutros, em
Trica noutros, etc. Mais tarde aprendeu a estar em vários sítios ao
mesmo tempo e curas milagrosas tinham lugar em simultâneo em todos
os seus templos. Até há um caso registado (e provavelmente houve
muitos mais que não ficaram registados) de pessoas que tiveram o
mesmo sonho estando a quilómetros de distância.
Antes da incubação as pessoas
tinham que fazer um sacrifício. O teor deste sacrifício variava de
templo para templo e até de pessoa para pessoa: as mais ricas
poderiam sacrificar um touro, pessoas mais modestas sacrificavam um
galo, que se tornou na oferta mais comum. Ao princípio esta
sacrifício e todo o culto de Asclépio acontecia em templos a Apolo e
mais tarde as pessoas tinham que sacrificar primeiro a Apolo, ou
andar à volta do seu altar três vezes e cantar-lhe um péan (em
Trica) antes se sacrificarem a Asclépio. O Deus acabou por ganhar
autonomia e tornou-se comum sacrificar apenas a ele ou a ele e à sua
filha Hígia (Hugieia).
Apesar de o culto e a purificação
diários do seu templo serem feitos pelos sacerdotes vestidos de
branco, os sacrifícios dos doentes e a incubação eram da
responsabilidade do neokoros, ou dos neokoroi em templos maiores.
Antes de acontecer a cura as pessoas tinham que fazer o seguinte:
oferecer um pequeno sacrifício e pedir ajuda. Grandes ofertas não
eram comuns e eram interpretadas como tentativas de subornar o Deus
- até há registos de que ele se recusou a curar algumas pessoas
porque tinham ofertas demasiado grandiosas para curas que ainda nem
tinham acontecido.
Quando o sol se punha, depois das
devoções diárias, as pessoas eram acompanhadas pelo neokoros até ao
abaton, ou adyton, a câmara interna do templo onde, ao contrário do
que acontecia na maioria dos cultos, a entrada não era restrita. Em
templos mais pequenos onde havia demasiadas pessoas para caberem no
adyton, estas dormian no templo. As pessoas passavam aí a noite a
dormir, sem qualquer purificação especial ("Pureza é ter pensamentos
puros"), ou roupas, jóias, incenso ou ofertas específicas.
Era normalmente no estado entre o
sono e a vigília que o Deus se aproximava dos seus doentes e os
curava. Estes testemunhavam ver o Deus a trabalhar neles ou
simplesmente a dar instruções sobre o que fazer (por vezes
instruções lógicas, outras vezes irracionais). O Deus também pedia
algo em troca, ou perguntava o que a pessoa lhe ofereceria. Contudo
não era um Deus ganancioso, como se pode ver pela seguinte inscrição
encontrada no templo de Epidauro:
Eufanes, um
rapaz de Epidauro. Sofrendo de cálculos ele dormiu no templo.
Pareceu-lhe que o Deus se aproximou dele e perguntou: "Que me darás
se eu te curar?" "Dez cêntimos", respondeu. O Deus riu-se e
disse-lhe que o curaria. Quando chegou o dia ele levantou-se
saudável. - Inscrições de
Epidauro
O Deus pedia presentes de acordo
com a riqueza da pessoa: ao jovem Eufanes pediu só dez cêntimos, mas
a artistas pedia tragédias, comédias, poemas, estátuas, a pessoas
ricas dinheiro ou edifícios ou que patrocinassem trabalhos de arte,
a pessoas modestas pedia um animal barato ou uma estátua tosca feita
por eles mesmos... Por vezes um prece ou uma canção era suficiente;
outras, pedia festivais ou presentes elaborados.
Contudo, as pessoas ficavam tão
agradecidas que muitas vezes davam mais que pedido: dinheiro para o
templo, comida para os sacerdotes, os neokoroi ou para os animais
sagrados, começavam um plano diário de devoção...
A incubação era considerada uma
epifania do Deus: o Deus vinha às pessoas e falava com elas, e
fazia-o diariamente a muitas pessoas. Para ilustrar a experiência de
um incubação de Asclépio, deixo-vos com um pequeno fragmento de
Aristides:
Ele [o remédio] foi revelado
da maneira mais clara possível, tal como um número infindável de
outras coisas tornaram a presença do Deus clara. Parecia quase que
lhe tocava e que sentia que ele se aproximava, e estando a meio
caminho entre o sono e a vigília e querer ter o poder da visão e
estar ansioso que Ele fosse embora antes disso, e ter virado os meus
ouvidos para ouvir, por vezes em sonho, outras vezes em visões
acordado, e o meu cabelo eriçado, lágrimas de alegria correram-me
dos olhos e o peso do conhecimento não era um fardo - que homem pode
sequer por estas maravilhas em palavras? - Aristides
~Miguel
Crito, devemos um galo a Asclépio. Paga-o e não o neges -
últimas palavras de
Sócrates
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