Sobre o Hino Homérico 21

A Apolo

Febo, de ti até o cisne que grita canta ao som das suas asas
À medida que pousa nas margens do turbulento rio
Peneios. E de ti o bardo de voz doce sempre canta
Em primeiro e em último com a sua lira que assobia.

E então saúdo-te, ó Senhor! Agracio-te com a minha canção

Esta é a tradução do Hino Homérico número 21 "A Apolo" (Eis Apóllona). É uma imagem simples e bela, a de um cisne que pousa junto a um rio com a sua voz comparada à de um bardo que canta eternamente. Contudo, há muito mais escondido no hino do que parece à primeira vista. Vejamo-lo frase a frase e discutamos um pouco.

ΦΟΙΒΕ, ΣΕ ΜΕΝ ΚΑΙ ΚΥΚΝΟΣ ΎΠΟ ΠΤΕΡΥΓΩΝ ΛΙΓ’ΑΕΙΔΕΙ
ΟΧΘΗ ΕΠΙΘΡΩΣΚΩΝ ΠΟΤΑΜΟΝ ΠΑΡΑ ΔΙΝΗΕΝΤΑ
ΠΗΝΕΙΟΝ:

Assumindo Phoibe como o epíteto de Apolo (Radiante), vejamos as últimas palavras do primeiro verso, extensamente analisadas. "De ti até o cisne que grita canta ao som das suas asas" ou "enquanto bate as asas". De facto, ΎΠΟ tanto pode significar "ao som de" ou "em direcção a" ou "de debaixo", por isso teoricamente podíamos ler este verso como "de ti até o cisne que grita canta de debaixo das suas asas". De qualquer maneira, o efeito ainda seria o mesmo: o som da canção do cisne mistura-se com o som das suas asas.

Isto faz lembrar o mito de Mársias, que competiu com Apolo tocando a flauta. Tanto Mársias como Pan são músicos maravilhosos, mas Apolo ganha a ambos porque não só consegue tocar a lira como pode cantar ao mesmo tempo, tal como o cisne "toca" as suas asas e canta com a sua voz.

Também há alguma equivalência ao som da cigarra, sagrada para Apolo. Os antigos assumiam, correctamente, que a canção deste insecto era produzida pelas suas asas.

Na verdade, era comum acreditar na Grécia Antiga que o que este verso queria dizer era que o som do cisne vinha das suas asas. Só a elite intelectual é que comparava isto a cantar e tocar ao mesmo tempo.

Em qualquer caso, existe uma imagem de quase epifania do Deus descendo nas margens do rio Peneios, um famoso centro de culto de Apolo, enquanto canta.

ΚΥΚΝΟΣ significa cisne, mas também é o nome de um filho de Ares que se dizia ter sacrificado a Apolo peregrinos a caminho de Delfos, construindo um templo com os seus crânios e dedicando-o a Apolo. Tal como é comum nos mitos antigos, é possível que Kyknos se tenha eventualmente misturado com Apolo, como se se tornasse uma parte do Deus, até mais tarde, quando o mito foi mudado para representar Kyknos a querer construir o templo a Ares, já que o mito antigo era incompatível com o Apolo brilhante.

Portanto, num salto enorme que faria qualquer estudioso franzir o sobrolho cheguei à conclusão que esta também pode ser uma invocação do aspecto brilhante de Apolo no sentido de "Do Brilhante até Kyknos, o assassino, canta". Ou seja, a luz de Apolo pode purificar e mudar qualquer coisa.

É também curioso notar que Peneios é o rio-Deus que foi pai de Dafne e que a terá transformado em loureiro. Também acho que o som do rio turbulento se mistura lindamente com o som da canção do cisne e das suas asas.

ΣΕ Δ’ΑΟΙΔΟΣ ΕΧΩΝ ΦΟΡΜΙΓΓΑ ΛΙΓΕΙΑΝ
ΉΔΥΕΠΗΣ ΠΡΩΤΟΝ ΤΕ ΚΑΙ ΎΣΤΑΤΟΝ ΑΙΕΝ ΑΕΙΔΕΙ.

De Apolo o bardo canta sem parar numa música constante (ΑΙΕΝ ΑΕΙΔΕΙ), em primeiro e em último ou do princípio ao fim (ΠΡΩΤΟΝ ΤΕ ΚΑΙ ΎΣΤΑΤΟΝ). Este verso também pode ser lido como "todas as suas [do bardo] canções são tuas [de Apolo]".

De facto, o bardo que segura a sua lira que assobia (ΦΟΡΜΙΓΓΑ ΛΙΓΕΙΑΝ) é muito semelhante tanto ao Deus como ao cisne. É engraçado como todo o hino parece rodar à volta de Apolo enquanto Deus da música, repetindo as maravilhas da canção, mas na realidade pode ser levado mais longe para incluir outros aspectos de Apolo não tão evidentes no texto.

Na verdade, a língua doce do bardo pode tanto estar a cantar de Apolo do princípio ao fim ou simplesmente ao princípio e ao fim. Se identificarmos o bardo com Apolo, então isto significa que Apolo pode apenas ser um cantor ao princípio e ao fim, porque no interior tem aspectos bem mais negros. O cisne que canta ao som das suas asas enquanto desce sobre o rio também nos lembra que ou o cisne ou Kyknos não cantavam antes de se aproximarem de Apolo. Kyknos também tem um aspecto muito mais negro antes da sua paixão pela música.

Peneios, o rio-Deus, parece ser dotado pelo mito com um poder de transformação. Quando transformou Dafne numa árvore também domou a paixão terrível de Apolo que o fazia perseguir a ninfa sem consideração pelos sentimentos desta. Quando ela foi mudada, o aspecto mais negro de Apolo foi iluminado e o Deus deixou de ser um caçador - pegou numa coroa de louros, tornando-se um cultivador, e declarou-a sagrada para si.

ΚΑΙ ΣΥ ΜΕΝ ΌΥΤΩ ΧΑΙΡΕ, ΑΝΑΞ, ΊΛΑΜΑΙ ΔΕ Σ’ΑΟΙΔΗ

Esta é a tradicional frase de encerramento em que o bardo espera ter agradado a Apolo e o saúda. Particularmente interessante aqui é anax, ΑΝΑΞ, que se traduz como "mestre" ou "senhor", um título atribuído na epopeia, por exemplo, a Agamemnon. Este era um epíteto comum de Apolo, e, mantendo presente que eram os bardos que o usavam, provavelmente significa que Ele é senhor ou mestre dos bardos, de novo uma referência aos seus aspectos musicais.

 

No fim, espero que na próxima vez que cantarem o Hino a Apolo mantenham presente quão profundo trabalhos simples podem, na verdade, ser.

 ~Miguel

 

Não há outro fármaco para o amor [...] que não as Musas - Teócrito