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Oferendas
As oferendas são isso mesmo: ofertas
que fazemos aos Deuses. Como é óbvio, são um leque muito vasto de
acções rituais, já que incluem oferendas de objectos, de acções, de
palavras, de pensamentos... No entanto podemos dividi-las em quatro
grupos principais: libações, sacrifícios, primícias e votivas.
As libações são as oferendas líquidas. No Kale já há um artigo
dedicado às libações, aqui. Resumidamente as libações consistem no
verter de um líquido que se oferece aos Deuses, podendo ser
parcialmente derramado, como nas spondé aos Olímpicos, ou totalmente
derramado, como nas khloé aos Ctónicos.
Os sacrifícios são parte indispensável de um festival, consistindo
em oferendas, normalmente de sangue, que se partilham com os Deuses.
Por exemplo, no sacrifício de um boi a Zeus, parte vai para o Deus e
parte para a comunidade. O mesmo pode acontecer com bolos ou outros
sacrifícios semelhantes. O sacrifício reforça a ligação entre nós e
os Deuses através da partilha.
As primícias, ou primeiros frutos, consistem no acto ritual de
oferecer a primeira parte aos Deuses: os primeiros cereais da
estação, os primeiros frutos da colheita, a primeira comida do
ritual, o primeiro vinho de uma garrafa, a primeira parte de uma
refeição. Tal como o sacrifício, as primícias reforçam a ligação
através da partilha, mas como são os Deuses os primeiros a receber,
reconhecemos a sua superioridade, e também que o que temos provém
deles, agradecendo-lhes pelo que nos dão.
Quanto às ofertas votivas, são aquelas ofertas que não são de comida
ou bebida, ou seja, que não se degradam. Exemplos de ofertas votivas
são estátuas, vestidos, danças, templos, hinos, músicas, meditações,
entre muitas outras. Normalmente as ofertas votivas são feitas em
agradecimento por algo, como a resposta a uma prece ou o afastar de
algum mal, ou a vitória de uma guerra. Podem também fazer parte
integral de alguns festivais, como a oferta de um peplos novo a
Atena pelas Panatenaias. Podem ainda servir como símbolo do pedido,
como acontecia com as estatuetas que se ofereciam a Asclépio
representando a parte do corpo que necessitava de cura.
As libações fazem parte de todos os rituais e podem ser feitas como
um ritual elas mesmas, ou como parte de venerações diárias ou de
preces. Os sacrifícios são quase exclusivos de festivais, ou de
rituais importantes. Já as primícias são oferendas do dia a dia,
embora também tenham o seu lugar nos rituais. Quanto às ofertas
votivas costumam ser o centro de rituais ou festivais que são
construídos ao redor dessa mesma oferta, sendo eles mesmos parte do
agradecimento.
Assim, vemos que para oferecer sacrifícios ou ofertas votivas convém
sempre que seja realizado um ritual. A excepção são as estatuetas a
Asclépio que já mencionei e que não precisam de qualquer ritual que
não uma prece. Já as libações e as primícias podem ser feitas em
qualquer altura.
Ritual Simples de Oferenda
Vamos aqui falar das primícias ou de oferendas votivas para as quais
não se faz um ritual completo. No entanto, esta mesma fórmula pode
ser usada para libações e até mesmo para sacrifícios quando a vida
moderna não nos permite rituais ou festivais que durem o dia todo.
Basicamente, o método consiste em chamar a atenção do Deus em
questão, fazendo uma espécie de Invocação (embora prefira o termo
Chamamento, já que invocação dá a impressão que nós estamos a
comandar o Deus) através de preces ou hinos.
Depois desta primeira fase vem a oferenda propriamente dita a qual é
acompanhada de uma frase ou hino do género "Ofereço-te esta xxxx,
grande Deus(a) yyyyy".
Caso seja uma primícia a oferenda deve ser enterrada para os
Ctónicos, ou simplesmente deixada ao ar livre para os Olímpicos. Na
cidade nenhuma destas opções se coloca, pelo que o melhor é deixar
no altar ou onde quer que se estaja a fazer o ritual e depois
deitá-la fora num saco em separado do restante lixo antes da oferta
começar a apodrecer.
As oferendas votivas eram normalmente deixadas no templo, pelo que
podem ser deixadas no local do ritual (se for sempre o mesmo vai
começar a ficar cheio, o que lhe dá um aspecto de local místico), em
locais especiais, ser usadas para decorar altares ou até serem
enviadas para alguém que mantenha um templo ao Deus ou Deusa em
questão, como é o caso do Templo de Apolo e Asclépio, aqui mesmo em
Portugal, ou do Cataleos, um
templo a Artémis nos EUA.
Finalmente, ao terminar o ritual pode-se agradecer ao Deus ou Deusa
em questão pela presença, ou pelas razões que levaram a oferecer a
respectiva oferenda, e terminar pedindo bênçãos.
Outro ritual muito mais simples seria o simples depositar da
oferenda em determinado local com uma prece rápida, por exemplo,
deixar um bolo num parque local dizendo "A ti, yyyyy, obrigado por
xxxxxx, possas abençoar-me sempre e possamos reunir-nos de novo".
Advertências
Normalmente os Deuses são muito tolerantes e aceitam de tudo desde
que a oferta seja feita do coração. No entanto existem algumas
preferências e certas coisas que Eles não gostam particularmente,
normalmente porque os fazem lembrar-se de coisas menos felizes.
A primeira advertência é relativa à purificação. Se possível deve
realizar-se uma pequena purificação, mesmo que seja só lavar as
mãos, a cara e os dentes.
Depois há certas ofertas que certos Deuses preferem, como o mel para
Apolo, carneiros brancos para Hélios, boi para Zeus, leitão para
Deméter, vestidos amarelos (cor de açafrão) para Atena, ou azeite
para a mesma Deusa. Por outro lado, certos Deuses repugnam certas
ofertas: não se deve oferecer vinho a Deméter, enquanto que é a
oferta ideal a Dionísos, nem romãs a Perséfone, enquanto que Hera
gosta bastante deste fruto.
Para estes casos pode-se sempre pesquisar e, em caso de dúvida,
confiar na intuição. Na minha opinião nenhum Deus vai ficar ofendido
por uma oferta menos correcta, desde que ela seja feita com espírito
de veneração e a pessoa não esteja a ofertar sabendo que é algo que
o Deus não aprecia.
O importante mesmo é a veneração, o resto é burocracia.
~Miguel
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